11 de fevereiro de 2009

NÃO EXISTEM HOMOSSEXUAIS

Por JOÃO PEREIRA COUTINHO

Acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada.

NÃO CONHEÇO homossexuais. Nem um para mostrar. Amigos meus dizem que existem. Outros dizem que são. Eu coço a cabeça e investigo: dois olhos, duas mãos, duas pernas. Um ser humano como outro qualquer. Mas eles recusam pertencer ao único gênero que interessa, o humano. E falam do "homossexual" como algumas crianças falam de fadas ou duendes. Mas os homossexuais existem?

A desconfiança deve ser atribuída a um insuspeito na matéria. Falo de Gore Vidal, que roubou o conceito a outro, Tennessee Williams: "homossexual" é adjetivo, não substantivo. Concordo, subscrevo. Não existe o "homossexual". Existem atos homossexuais. E atos heterossexuais. Eu próprio, confesso, sou culpado de praticar os segundos (menos do que gostaria, é certo). E parte da humanidade pratica os primeiros. Mas acreditar que um adjetivo se converte em substantivo é uma forma de moralismo pela via errada. É elevar o sexo a condição identitária. Sou como ser humano o que faço na minha cama. Aberrante, não?

Uns anos atrás, aliás, comprei brigas feias na imprensa portuguesa por afirmar o óbvio: ter orgulho da sexualidade é como ter orgulho da cor da pele. Ilógico. Se a orientação sexual é um fato tão natural como a pigmentação dermatológica, não há nada de que ter orgulho. Podemos sentir orgulho da carreira que fomos construindo: do livro que escrevemos, da música que compusemos. O orgulho pressupõe mérito. E o mérito pressupõe escolha. Na sexualidade, não há escolha.

Infelizmente, o mundo não concorda. Os homossexuais existem e, mais, existe uma forma de vida gay com sua literatura, sua arte. Seu cinema. O Festival de Veneza, por exemplo, pretende instituir um Leão Queer para o melhor filme gay em concurso. Não é caso único. Berlim já tem um prêmio semelhante há duas décadas. É o Teddy Award.

Estranho. Olhando para a história da arte ocidental, é possível divisar obras que versaram sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo. A arte greco-latina surge dominada por essa pulsão homoerótica. Mas só um analfabeto fala em "arte grega gay" ou "arte romana gay". E desconfio que o imperador Adriano se sentiria abismado se as estátuas de Antínoo, que mandou espalhar por Roma, fossem classificadas como exemplares de "estatuária gay". A arte não tem gênero. Tem talento ou falta de.

E, já agora, tem bom senso ou falta de. Definir uma obra de arte pela orientação sexual dos personagens retratados não é apenas um caso de filistinismo cultural. É encerrar um quadro, um livro ou um filme no gueto ideológico das patrulhas. Exatamente como acontece com as próprias patrulhas, que transformam um fato natural em programa de exclusão. De auto-exclusão.

Eu, se fosse "homossexual", sentiria certa ofensa se reduzissem a minha personalidade à inclinação (simbólica) do meu pênis. Mas eu prometo perguntar a um "homossexual" verdadeiro o que ele pensa sobre o assunto, caso eu consiga encontrar um no planeta Terra.

*Texto enviado por e-mail pelo Miguel Andrade

10 deixaram seu recado:

Diógenes de Souza 11 de fevereiro de 2009 17:37  

Ótimo texto. Os rótulos são totalmente dispensáveis, a não ser para os que gostam de guetos, prisões.

abraço.

Daniel 11 de fevereiro de 2009 20:42  

olha, num mundo perfeito, eu concordaria 200% com o texto, mas foi justamente depois da antiguidade clássica que os atos homossexuais passaram de normalidade banal para "abominações terríveis" (fonte: Bíblia).
Por causa da "plutonização" da homossexualidade, acho válido um certo senso de orgulho como ação afirmativa da identididade humana.

O ideal é que, após um tempo, o padrão da antiguidade clássica citado no texto seja restaurado e aí sim não precisaremos mais de dia do orgulho gay.

Viu só? eu passo o dia sem assunto pra postar no meu blog pq fico torrando meus argumentos nos blogs dos outros :P < /invejinha>

bjão!

Rubens Oliveira 11 de fevereiro de 2009 20:55  

HAhAhHAHAhaHAHHAHA

A intenção é essa mesmo.

Trazer pessoas com argumentos nos comentários.

Flávio Amaral 13 de fevereiro de 2009 01:33  

Um oásis num deserto de idéias. E que sede, que sede...

Cabe lembrar que a substantivação do adjetivo oficialmente remonta a Magnus Hirschfeld, sexólogo alemão - defensor da "causa gay" em seus primórdios. Até meados do século XIX, atos homossexuais eram condenados como atos, mas em tese, eram atos passíveis de ser cometidos por qualquer um. Como furto, por exemplo. Hirschfeld defendia - legalmente, claro, e isso teve sua importância - que indivíduos homossexuais 'cometeriam' esses atos por SEREM homossexuais e, portanto, não poderem agir diferentemente.

Qualquer que seja o caminho que tomem esses comentários, aplausos entusiasmados para a sua extensão à questão da arte gay. Essa discussão ainda existe para a literatura 'feminina' e não se concluiu.

Por fim - me estendi, perdoem - uma curiosidade maliciosa. Hirschfeld, numa tradução literal do alemão, significa o "campo dos veados", algo como "deerfield" - hehehehe ;-)

Celso Dossi 13 de fevereiro de 2009 11:33  

Tenho um casal de vizinho homossexuar.

Uillow 15 de fevereiro de 2009 13:14  

Rótulos são dispensáveis sim, mas são neles que a sociedade se sustenta... nos rótulos. Sempre foi assim e sempre vai ser.

Luan 20 de fevereiro de 2009 12:13  

a ultima coisa que me preocupa é com quem as pessoas estão praticando seus atos.
isso nunca me importa primeiro do que o tipo de musica que elas escutam, por exemplo.

Carne Crua 26 de fevereiro de 2009 14:18  

No fundo sinto que à partida estou em desvantagem, isso só porque, "a inclinação do meu pénis é outra". Mundo de gente pequena este em que vivemos. Só vêem o que os outros vêem. Deixo aqui o convite para conhecer o Carne Crua em http://carnecrua.blogs.sapo.pt

Anônimo,  27 de julho de 2009 03:18  

COM CERTEZA A MATÉRIA SERIA MAIS CRÍVEL SE O TÍTULO FOSSE: NÃO EXISTEM HETEROSSEXUAIS, e poderia concluir, por lógica, que não existem homossexuais. Quanto ao orgulho, por serem os gays os únicos humanos discriminados pelos próprios pais que, às vezes, até os expulsam de casa(pais de negros não discriminam a cor dos filhos, p.ex.) e, mais, o único segmento da sociedade que é caçado por homofóbicos, quer dizer, bichas enrustidas e de pau pequeno, ´com atos violentos que levam, até à morte, convenhamos, além da condenação da igreja, sentir orgulho por sobreviver às estas hecatombes, é pouco.

Anônimo,  29 de dezembro de 2009 23:03  

Excelente.
Concordo plenamente. Eu também jamais vi um homossexual. Recuso-me a injuriar alguém rotulando-a por aquilo que ela possa ter feito ou que potencialmente possa vir a faze-lo.
Não há nenhum mérito em se nascer macho ou fêmea, homem ou mulher isto é ditame da natureza.
Atos homossexuais jamais serão atos sexuais, pois para haver relação sexual ter-se-ia obrigatoriamente que haver os únicos dois sexos envolvidos na mesma. Havendo somente um deles poder-se-ia ter qualquer coisa menos uma relação sexual.
Uma desgraça. Se castrar para o relacionamento sexual para satisfazer um grupelho de pessoas que se auto-intilularam de líderes do movimento homossexual às custas do sofrimento e destruição de um punhado de outros inocentes utéis.

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