24 de novembro de 2008

A VOLTA DA BONITA

Por Gilberto Scofield Jr

Hoje de manhã, domingão de inverno em Pequim, temperatura próxima dos sete graus e aquele céu cinza asiático do lado de fora. Acordei na função mudança, pensando no transporte de metade do que eu tenho aqui para o Rio, a maioria da trecaiada para Washington, empacota isso, despacha aquilo, bate matéria, manda e-mail de despedida, confere as encomendas dos amigos e da família, fecha contratos. Um sufoco.

Daí lá pelo meio-dia aqui (quando dá duas da madrugada de sábado no Rio), dou uma olhada nos jornais brasileiros e, sinceramente, se sofresse de depressão, pedia demissão da profissão de jornalista. É notícia ruim demais. Com um agravante, provavelmente potencializado pelo fato de morar fora do país já há quatro anos e meio: não vejo melhoras no Brasil. E estou indo para lá!!!!

Pequim cavalga a ritmo alucinante, quilômetros de novas linhas de metrô a cada ano, milhares de novas ruas e avenidas tentando (em parte em vão) melhorar o trânsito da cidade, bares e restaurantes novos pipocando às dezenas a cada fim de semana, negócios novos aqui e ali. Rola corrupção? Claro. Tem desigualdade? Sem dúvida.

Mas a sensação de que “para frente é que se anda” é absurda. Enquanto isso, ao Sul do Equador, a política mafiosa e corrupta continua a dar as cartas. A elite acomodada e insensível continua a frequentar seus redutos sem culpa. A miséria, a violência e a decadência continuam a dar o tom do dia-a-dia da maioria dos brasileiros. Caraca, isso muda quando? E toda a América Latina parece padecer da mesma anorexia política populista ou estou maluco?

Parece discurso de bonita fora do Brasil, mas e se for isso mesmo? E se a distância, o famoso distanciamento crítico, realmente ajuda a enxergar melhor o atoleiro de onde eu vim e para onde vou? Chego ao Rio em dezembro depois de anos fora da cidade onde nasci e cresci, um lugar todo arrepios, todo lembranças, todo histórias. Para os expatriados, curiosamente, todas as cidades brasileiras ganham este tom, aliás. Todas as cidades parecem ser estranhamente suas, atemporalmente suas as Urcas tanto quanto as Vilas Marianas, as Savassis e as Pitubas. São todas minhas casas, minhas lembraças, meus amigos.

E o que me resta, depois da leitura dos jornais e dos sites, é uma melancolia estranha. Os blogs contam com detalhes a noite que começou no Felice/Novo Galeria (Ritz/Spot/Mestiço? Giz/Estação 2000? Marquês/Off Club?), emendou na The Week local, esticou no after isso, na pool party aquilo. Luxo, poder e riqueza. Mas vem cá: e dá para ir para estes lugares de carro novo? O guardador continua extorquindo a vaga no estacionamento?

Alguém sai de relógio de pulso de casa? É peito e cueca de fora ou dá para pensar num modelo mais fino? Tem que estar colocón para aproveitar ou dá para ser feliz de cara limpa? Dá para ser gordo sem neura ou tem que ser Barbie para ser feliz? Gente com mais de 35 é cacura de quinta ou envelhecer pode ser um trunfo? Saber a letra de um hit de Beyoncé é sinal de hype ou de jequice? Cantar de olho fechado a música na pista é phyno ou é um lixo? Atorón é uma paraíba pagando mico ou é hype?


Tenho medo de voltar ao Brasil e perceber que minha memórias e minha experiências num país estranho viraram minhas fraquezas e meus medos. Que minhas espectativas ficaram melhores só depois de um Olcadil ou de um uísque. E que não há DJ descolado em The Week nenhuma da vida capaz de trazer de volta minha felicidade num jantar regado a saquê entre amigos no Azumi.

Rodrigo me disse: “ah, pára de ansiedade”. E eu respondo: “Ok, ok, mas dá para ir de relógio?”.


2 deixaram seu recado:

Daniel 24 de novembro de 2008 20:53  

isso é pq o gilberto não tem lido o meu blog.

Zé Hilário 25 de novembro de 2008 09:42  

Mas em Pequim também não dá para sair de relógio em punho... é tão violenta quanto o rio de janeiro, e ainda tem o agravante da ditadura e tralala.. o lance é que tem muita gente no país e os chineses acordaram pra economia de mercado.

Enquanto que no Brasil, nossos "notáveis" defendem o socialismo, nas universidades públicas os professores colocam Marx e todas as suas teorias "não testadas" (diga-se de passagem) num pedestal.

E viva as contradições brasileiras.

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