6 de novembro de 2008

O GAY E A MATURIDADE


Por Gilberto Scofield Jr

Esta semana estava lendo no site da revista “Caros Amigos” uma entrevista inédita de Carlos Drummond de Andrade para a revista ainda em 1984, quando ele tinha 82 anos.

O pingue-pongue falava sobre o processo do envelhecimento e como isso havia afetado sua escrita, de um modo geral, e sua poesia, em particular. Muito lúcido, Drummond desmistificava o tal processo de envelhecer (coisa que o médico e memorialista gay Pedro Nava, por exemplo, nunca conseguiu fazer), dizendo o seguinte sobre como encarava a velhice aos 21 anos:

“Eu acho que ninguém está preparado para envelhecer. É uma coisa que a vida se encarrega de nos trazer, sem que nós tenhamos pedido, nós não influímos nesse assunto, a mocidade não espera a velhice, não receia a velhice, e ninguém está preparado para envelhecer, ela vem como uma fatalidade biológica”.

Fiquei pensando nisso quando, numa conversa com um querido amigo careta, ele me disse que, na passeata gay da Paulista, ano passado, ficou intrigado ao ver como os gays mais velhos se aproximavam da figura das peruas. “Como assim?”, eu perguntei e devo ter feito uma cara de espanto tão grande que meu amigo foi logo se explicando:

“Eu nunca vi tanto homem acima dos 30 agindo como adolescente, boné ao contrário, bermuda de surfista, exibindo corpos malhados no limite, caras botocadas, tomando drogas e ainda totalmente dedicados a uma fixação pela sedução que, depois dos 30, me parece meio anacrônica”
.

Eu ponderei que ele então estava saindo com caretas casados, porque os caretas solteiros… bem, esses continuam envelhecendo cada vez mais tarde, especialmente depois do fenômeno da metrossexualidade que transformou cada careta muderno numa persona um tanto gay. Ele admitiu isso, mas com certa melancolia. E finalizou: “Envelhecer, hoje, virou uma doença”.

Não sei bem se é por aí e meu aniversário esta semana me fez pensar bastante nisso no topo dos meus 43 anos. De cara, posso dizer que sou um sobrevivente. Da minha geração pré-Aids, poucos amigos estão vivos hoje para contar história, o que é tristíssimo. Mas é preciso deixar claro que envelhecer é também um delicioso processo de enxergar cada vez com mais clareza a vida de um modo geral (ok, ok, isso não é regra, mas deveria ser, correto?).

Eu trabalho com prazer, me exercito com prazer, amo meu companheiro com prazer e, por conta de uma história de vida bastante bem resolvida, posso dizer com tranqüilidade que ser cacura, véia, tiozinho - três adjetivos que carregam um tom de deboche e desprezo estranhos - é muito diferente de ter 43 anos de uma vida bem sucedida. Simples assim.

É claro que, quando eu tinha 21 anos, 43 anos me parecia de uma cacurice infinita. Mas ninguém tem 21 anos à toa, certo? Agora, aos 43, posso dizer que sou muito mais feliz, realizado e bonito do que aos 21, época em que eu ainda era constrangedoramente dark e fã de “The Cure” e “Smiths”. É claro que a imagem de cabelos do peito ficando brancos (e, em outras pessoas, cabelos da cabeça ficando ralos) é uma maneira de a vida te dar um toque: “Se acalma amigo, put yourself together”.

E quando eu ouço isso, tomo um banho com meu companheiro, botamos nossas melhores roupas e vamos ao Mesh nas quintas-feias gays do hotel “The opposite House” em Pequim, onde encontramos com amigos para discutir a Obamania que assolou o planeta. E ali, entre um lychee Martini e outro, enquanto meu companheiro passa carinhosamente a mão na minha nuca, eu sou o tiozinho mais feliz do planeta.


7 deixaram seu recado:

mah.rcius 6 de novembro de 2008 11:36  

Vc está realmente inspirado com esses seus últimos posts!

Adorei!!!!!!!!!!!

Nao cheguei aos 'enta' ainda, mas hoje, com 27a me sinto muito mais seguro, satisfeito do que qdo eu era 'teen' ou entrava nos vinte.

André,  6 de novembro de 2008 11:38  

Adorei, adorei, adorei. É exatamente assim que penso – e também sinto essa estranheza pelos gays que vão envelhecendo e não aceitam isso, ou sei lá. Me dá uma certa angústia dos tiozinhos que continuam, como bem disse o seu amigo: "boné ao contrário, bermuda de surfista, exibindo corpos malhados no limite"... coisas do tipo. Não que se cuidar seja ruim. De jeito nenhum. Mas chegar aos quarenta e poucos no mesmo papinho de bee adolescente ninguém merece! E acho que esse é um fator que fez com que eu nunca conseguisse me aproximar de homens da minha idade (23). A parte mais sedutora do corpo de um homem, pra mim, é o cérebro, pode apostar.

AleX nObre ® 6 de novembro de 2008 11:44  

Deu uma baita dorzinha no peito com esse post! 2 pontos que tenho muito medo foram abordados. Envelhecer me assusta e envelhecer sozinho, mais ainda. Aos 23 anos de idade eu já tô cansado de ficas e situações momentâneas. Quero parar e construir algo ao lado de alguém, mas esse ninguém não apareceu ainda. Achava que tinha aparecido, mas ele se foi. Eu não era o alguém dele. Anyway ... envelhecer sozinho me assusta mais que o inevitável ato de envelhecer :(

AleX nObre ® 6 de novembro de 2008 11:46  

*esse alguém não apareceu ainda ... escreví "esse ninguém" ... hahaha (é pq ninguém apareceu, né?)

brenomaciel 6 de novembro de 2008 12:27  

realmente texto muito bom.
e ciomo o colega daí de cima disse, não tenho medo da inevitável velhice, mas tenho medo de encará-la sozinho.
deve ser bom pra rir junto quando os cabelos começam a ficar brancos.

abaços, felicidades

Wellington Pereti 6 de novembro de 2008 13:32  

Ja tive mais medo de envelhecer, ainda mais quando achava que ia ser sozinho.
Hoje eu consigo me enxergar mais velho, dividindo a vida com meu amor.

E no alge dos meus 31 anos, vejo que é bom ficar velho, os medos não existem mais, você deixa de lado um monte de coisas que não iam te acrescentar em nada, e começa a separar as coisas com mais criterios.

Markus 12 de novembro de 2008 03:12  

Fantastico... belo inclusive. Abração

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