4 de novembro de 2008

DEMITIRAM A DRA. HAHN


O ano era 1998. Na Rede Globo de Televisão estreava a novela Torre de Babel. O nome veio da bíblia, para dar a idéia de um lugar onde ninguém se entende. Na história existia um casal de lésbicas, interpretadas majestosamente pelas atrizes Christiane Torloni e Silvia Pfeifer.

Torre de Babel foi um "soco no estômago", conseguiu chocar, e conseqüentemente, transformou a maior emissora de TV do país numa verdadeira Torre de Babel.

De um lado os que achavam que a novela mostrava nada além do que é a realidade, e do outro os que acreditavam de que tudo era uma "imoralidade". A ponto do então cardeal arcebispo do Rio de Janeiro excomungar o elenco e a produção da novela.

Também houve uma ameaça de bomba na sede da Globo, enviada por um grupo composto de religiosos ultra-conservadores.

Com isso, a audiência caiu vertiginosamente, fazendo o autor e a direção da emissora entrarem em pânico.

O que fizeram? Numa passagem já prevista pela sinopse (a explosão do shopping que levava o nome da novela) resolveram incluir o casal de lésbicas (e outros tantos que não foram “aceitos” pelo grande público) e as eliminaram da história.

Morreram não por uma necessidade intrínseca da história. Morreram porque os espectadores não estavam aceitando a trama com o entusiasmo necessário para manter o nível de audiência alto e todas as vantagens comerciais decorrentes disso.

Qual é minha intenção em lembrar disso tudo?

Para dizer que em pleno 2008 esse tipo de “intervenção” ainda existe, mesmo que para isso seja necessário sacrificar uma parte da história.

Ontem foi publicado na coluna do Ausiello a noticia de que a personagem Dra. Hann (Brooke Smith), da série americana Grey’s Anatomy, será demitida do hospital Seattle Grace, pois por ordem da alta direção do canal (ABC), após uma pesquisa de opinião, a relação homossexual dela com a personagem Dra. Callie (Sara Ramirez) estava “explicita” demais.

A idéia de colocar na trama duas lésbicas era legítima, como era e são legítimas quaisquer invenções de um dramaturgo. Entretanto o que mais choca é a forma abrupta que as coisas se desenrolaram. A personagem simplesmente sai da série, sem um contexto, sem uma explicação.

Se a autora (Shonda Rimes) quisesse matá-la, estaria ao lado dela contra todas as investidas do politicamente correto, em nome da liberdade de expressão, do direito da autora de conduzir sua história como bem quiser.

O argumento de pesquisar a opinião dos espectadores e alterar o enredo de acordo com seus desejos é bastante forte, de um ponto de vista financeiro.

Seus defensores dizem: temos muito dinheiro e muitos empregos envolvidos, se podemos determinar a trilha do sucesso, por que desprezar esse recurso que nos vem da pesquisa? Por que perder dinheiro, se precisamos manter a máquina funcionando a todo vapor?

Outros podem até se arriscar a um argumento baseado na democracia: por que os autores devem conduzir sozinhos suas histórias, qual o problema de ir definindo o caminho dos personagens por meio de uma consulta interativa?

Enfim, são argumentos importantes, mas deixam de fora exatamente a questão da liberdade estética, do potencial da arte de alterar posições definidas, da importância de arriscar-se a um fracasso de público, de saltar sem rede do trapézio.

No caso das lésbicas, a intenção foi a melhor possível. Caso o amor delas resistisse à série que tem uma das maiores audiência nos (ultraconservador) EUA , à severidade da ceia familiar, o país teria dado um salto em direção ao próximo século: direitos humanos fundamentais estariam sendo reconhecidos num país onde a maioria é chegada a uma pena de morte.

E mesmo no caso da série ser um fracasso de público, a relação homossexual teria uma compreensão maior se fosse mantida até o fim, porém acho que levarei anos pra entender esse tipo de posição.


Fiquem com a cena e últimas falas da personagem Dra. Hann, quando esta declarava todo os seus sentimentos a sua “parceira” Dra. Callie:



Dra. Hann: Toda minha vida... Toda minha vida adulta, eu estive com homens e sempre me senti legal, bem. Mas, eu nunca... Quero dizer, já, mas não... Não assim. É como precisar de óculos.

Dra. Callie: Ceguei você?

Dra. Hann: Não! Explico: Quando eu era criança, tinha dores de cabeça e quando ia ao médico e eles diziam que eu precisava de óculos. Eu não entendia isso. Não fazia sentido pra mim, porque eu enxergava bem.

Mas aí, comprei os óculos, e coloquei. E quando estava no carro, no caminho de casa, de repente GRITEI. Pois eu percebi que as grandes bolas verdes que tinha visto minha vida toda, Não eram bolas verdes. Eram folhas nas árvores.

E eu podia ver as folhas. E eu nem sabia que estava perdendo de ver as folhas. Eu não sabia que essas folhas existiam. E então, folhas. Você, Callie, é o meu óculos.

* Imagem retirada do blog Kiwi Nuclear (que também fala sobre o tema acima)

11 deixaram seu recado:

Maria Carolina 4 de novembro de 2008 20:28  

Passaram 24 horas da notícia e confesso que passei o dia procurando uma errata nos sites estrangeiros. Continuo chocada. E muito desapontada.

Estefanio 4 de novembro de 2008 22:09  

Péssimo péssimo, ainda mais a história das duas que começou tão inocente e pura, não achava nad agressivo. Sem contar no peso da personagem no contexto geral da história, ela desenvolveu a ultima temporada inteira um dos melhores temas jnto com a Sandra Oh(a melhor atriz do seriado) que fez ate a gente conhecer o outro lado da Cristina, que não conhecíamos!
É meio controverso quando pouco tempo atrás dispensaram o Isaiah por causa da briga homofóbica e agora parece q deram 2 passos pra trás!
Enfim...

corbata1982 4 de novembro de 2008 22:36  

então, tem duas gurias no reprise de Mulheres Apaixonadas né? acho que o povo aqui tá lidando melhor com isso.

naturline 5 de novembro de 2008 04:53  

Parabéns pelo seu blog e postar suas fotos fantásticas que eu gostava muito de perder o seu blog. muito obrigado.
Receba uma saudação cordial.
Peço desculpas pela publicidade.

MaxReinert 5 de novembro de 2008 14:41  

Pois.... realmente uma pena!!!

Postei hoje falando da qualidade da cena da novela A Favorita onde a personagem Stela faz seu outting para Lilia Cabral...

Uma cena tão bonita e realista que dá gosto de ver... aí leio sua notícia...

ai ai...

GaRoTo BiPoLaR!?! 6 de novembro de 2008 00:42  

Realmente é uma pena que um casal bonito, bem-sucedido e independente (como o próprio casal em Torre de Babel) seja limado dessa maneira...

Mas vindo da puritana nação norte-americana não é inesperado, são poucas as séries que conseguem mostrar um relacionamento homossexual toda a semana na "casa" do estadunidense médio (Só consigo pensar em Brothers & Sisters atualmente...).

Um Bravo pelo desabafo e Obrigado pelo Link (adorei a imagem :D)

Abraços

Alexandre Lucas 6 de novembro de 2008 04:06  

Por essas e outras sou mais o Dr. House!

Postar um comentário

  ©Template by Dicas Blogger.

TOPO